
Não sei bem por onde, mas foi mais ou menos por aí. Foi maravilhosa a maravilha que foi. Mas não foi, ainda é. Tem pernas vivas, pulsando ereto. Serão os próximos do Cordel!
Um fragmento do que foi o espetáculo, o último texto (até pedirem bis, é claro), pra que se entenda da fusão que fora. Que é ainda.

(Foto por Priscila Sabino)
"A fusão que se dava – a fusão entre a letra e o som, a fusão entre a idéia e a massa, a fusão entre o sal e a carne, a fusão entre o corpo e o ar – arquitetava na atmosfera proposta a geometria das expectativas. E os olhos seduzidos se entregavam aos sons, num quase escarcéu de sentidos confusos e pasmados. O sumo escorrido da fusão entre o homem e o mundo, envernizando os clarões do dia, preenchendo entre a desordem das gentes, preenchendo entre as horas e lidas; no que restava do sol e dos cheiros, até à tardinha. Quando o caos atalhava-se às cadeiras postas, e então tudo sucumbia, murchava, fenecia, até que de tal sumo não restasse com que lubrificar as dobradiças. Pois era das passadas áridas nos asfaltos que o sussurro dos músculos brotava. E vinham os sons silenciar a cinética de mais uma noite, cravados nas patas dos grilos, cravados nas patas dos homens, cravados nas patas da vida." (Copyrigh © Carolina Caetano).
Aquele abraço!!
E o poema fala de amor... Pode?!
Do tento e outra bobagem
São guarda-sóis cravados na areia
E o regaço de idéia contida
Debruçado o corpo em sofismas
Pois que são só guarda-sóis e areia
E guarda-sóis não pensam em nada
São entrelinhas e transições
E o abrigo dos meios-termos
Estancado o corpo em abismos
Pois que são só entrelinhas e meios
E transições não levam a nada
São copos sujos na escrivaninha
E a aldeia das cartas tácitas
Pairado o corpo em intentos
Pois que são só papéis e copos
E devaneios não intentam nada
São cobertas vazias na noite
E o retiro dos pêlos arrepiados
Desnutrido o corpo na ausência
Pois que são só quartos e noites
E cobertas não aquecem nada
São estrangeiros cravados em terra
E a nação de anseios infantis
Norteado o corpo em caos
Pois que são só guarda-sóis em teu peito
E amor não sossega por nada

E por falar em amor: a maravilhosa poeta Betina Moraes, defendendo meu poema no Concurso Nacional Francisco Igreja 2007 (ao fundo, a vice-presidente da APPERJ, Márcia Monteiro Leite), foi no "Rio que é rio de Janeiro a janeiro". O poema venceu o concurso em primeiro lugar. E eu ainda agradecida, agradecendo, tentando agradecer.

É com certo pesar que venho anunciar aos amigos uma pausa. Terei de me retirar em isolamento criativo, pra um trabalho importantíssimo que, espero, irá me consumir das pontas extremas aos núcleos. Mas será breve, personas, não se afobem, não dará nem tempo de vocês sentirem sede e logo voltarei a regar essa terrinha nossa, certo? Sei que um recesso desses pode afetar violentamente a movimentação do blog, mas necessito verdadeiramente me afastar. Assim que eu voltar farei um estrondoso alarde (redundante ou não) pra despertar vocês. Enquanto isso, continuem lendo muito e, na saudade possível de meus escritos, escrevam vocês, que é maravilhosamente indescritível (antagônico ou não).
Então, personas queridas, fortes abraços e até breve!!
Em primeira e atenciosa pessoa,
Carolina Caetano.
Na manhã que nem era sua
o copo entre mãos atrasadas
era o tempo dos tímpanos, mais nada
E o sol recitava nas cortinas
com seu hálito pontiagudo de ordem
"Mostra a tua pele e derrama o teu suco
derrama-te pelo chão
e vai bebendo a ti pelas tuas solas
vai comendo-te o pão de teus sais
engana a tuas células, de lado a outro
engana teu dia de pés e lã
engana agora que te come o nada sem vinho
limpa-te a boca, homem
e vai tu à labuta"
Depois esfregou os olhos
e foi-se.

Essa burocracia, um câncer! Agora essa maquiagem toda de produto aprovado, testado, liberado. Aí os olhos do bicho derretem e não se vende o produto. Um desacato à sanidade humana. E à minha. Afinal, as férias, desde quando? Reuniões, jantares, Aspirina. E o jantar, meu Deus, hoje ainda essa! Que minha filha não ligue despejando-se em chateações. E o que é isso desses jovens de hoje, tanto celular, e ainda todo o resto, enfim! Férias? Ah, desde quando? E então, botaram o produto no olho do bichinho? Sempre os testes, testes! Madalena, meu casaco.

(Manifesto contra o uso de animais em laboratórios)
Devia saber olhar pra luz quando sentisse vontade de espirrar. Agora ficava remoendo o impulso aeróbico com nariz e olhos vermelhos. Iria numa resmungação o dia todo, o espirro iminente que não se dava. Ah, aquela ingrata. Parecia que não aprendera a observar, a não se coçar em público, a não chatear tanto. Guiava-se de instintos, contradizendo a pele depilada. Mas era ainda pior o impulso vital da cretina, ou saltava o abismo, ou não morria nunca. Emitia cotidianamente os sons involuntários da ignorância amiúde, ajeitando a casa ou rindo vulgarmente. Se não fosse a própria um som ignorante. Não, som não era. Era um pedaço mal ordenado, ou mal ornado, ou nem era assim um pedaço, talvez uma tentativa. Ai, como era indescritível a simplicidade errante de bola de gude. Isso era de matar poetas e Freud. Devia é ter saído de obrigação, como deixasse mal costurado meu útero, como restasse um sentido qualquer daqueles movimentos mal planejados, daquele pretexto hedonista, ai... ela havia se tornado um monstro mal concebido, e agora me devorava. Me devorava mais ainda o fato de tê-la criado. Ai, que eu queria espirrar agora.

(Maternidade - Picasso)
Porque precisa-se da estagnação de prosa. Não diria estagnação, mas a segurança. Pois precisão de gosto e forma e molde, essas são notáveis ao paladar primário. Mas de prosa... diria de prosa como arroto de bebê após o leite, ou até apoio de cotovelos. Mesclaria eu a precisão - de precisão mesmo - à necessidade da prosa. Porque a imprecisão do verso é sempre necessária. Verso assim espalhado na sala, eu diria verso como soluço, como pontada de músculo, ou até coceira cutânea. Mas a prosa assim da ponta da língua ao final do estômago, assim a prosa entre lenço e bolso, prosa de colchão velho, cheiro de mofo. Precisa prosa, necessária. Mesmo a prosa tropeçada, de dois dedos. Prosa ejaculada. Porque assim precisa de cotovelos, fez-se necessária.

(Na foto a poeta Betina Moraes - apoio prosaico de cotovelo)
Mal sabiam as pernas
Das botas de sete horas
Dos passos asfaltados de dias
Mal sabia a família
Mal desculpas havia
Bem se engasgavam os pés
Mal a voz podia
O que também não faz tão mal assim...

(Desaparecidos)

(Foto de Augusto Stahl)
De prostitutas a postes de luz
Pra noite há o que se consome
Pendências de trabalhadores incansáveis
No revés do dia engrenado
De grilos a cobertores
Nos leitos de carne, de sono,
E de olhos estatalados.

(Van Gogh - Noite estrelada)
De todo manso, de meio brando. Não é de todo mau. É de todo a quase e de bem a pior. Vai de muito a além e além de tudo é quase todo de bem. É de bom mecanismo e bem estar. É estado de graça se de bem está. E está quase sempre todo, de bem ou de quase, mas está. Meio acima é bom, meio abaixo é ainda melhor. Da esquerda pra direita não faz diferença, não de longe assim. Bom de tudo e mediano, vai de bom a melhor.
Já a do 302, aquela vai divorciar outra vez!
Melhor fechar a porta, que a violência está em alta. E os corredore, sabe, têm ouvidos!
(As fofoqueiras - óleo sobre tela - Guido Viaro)
Era cansativo o final do dia, então ele quis mudar tudo. O toureiro despiu-se do vermelho de todos os dias, foi ao centro da arena e quis enfim virar poeta, ficar indomável. Bradava cru e destemido seus versos:
"Vem a mim, Miura em fogo
Vem a mim o meu vacilo
Vem, Miura, e te acolho!"
Após tanto, o grande e impiedoso Miura foi...
Se fizerdes do título um conto
fazei do poema um ponto.

(Foto por Lucas Valle - Centro Cultural Oscar Niemeyer, interior)